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sábado, 9 de setembro de 2006

Coração partido nº 1

5ª série, 1990.
Estranho quando você volta para um lugar que você nasceu depois de dois anos. Tentar me reacostumar a algo que eu já estava começando a esquecer e numa idade de mudanças, saindo da infância e entrando na adolescência era algo que fazia minha cabeça girar. Muita coisa ao mesmo tempo acontecendo.
Ao voltar, a gente passou por muitas dificuldades financeiras. Não chegamos a passar fome, mas o pouco que o meu pai, minha mãe meus irmão ganhavam eram para a comprar material para a casa que estava sendo construída. E como três dos quatros que trabalhavam em casa moravam naquele bairro, meu pai pensou e pediu para o dono da casa que era padrinho do meu irmão mais novo que a gente ficasse lá por pelo menos três meses antes de mudarmos para a casa que estava sendo construída.
E quase não sobrava dinheiro para meus pais comprarem o uniforme da escola, mal dava para o caderno e tentava com alguém arranjar um livro para estudar pois não tinha dinheiro para comprar.
Diferente da realidade de meus colegas. Mesmo sendo uma escola pública, a maioria dos alunos era de classe média. Tinham até condições de estudar em escola particular, mas preferiram estudar em escola estadual. Algo impossível hoje.
Apesar de tudo isso, estava gostando de voltar a estudar.
Na primeira semana de aula, teve uma eleição para saber quem seria o "monitor" da sala. Algo que eu nunca tinha ouvido falar e que foi explicado pela professora de Ciências. Era assim, dois alunos, um garoto e uma garota seriam escolhidos para ser responsáveis pelo fechamento da classe e entrega das chaves na diretoria, para ver se faltou algum professor e cuidar da classe quando o professor estivesse ausente da sala.
eu sem saber de nada disso, me candidatei, e ganhei.
Eu e outra aluna.
Aí que começa uma história de um coração partido.
Estava tendo alguns problemas de relacionamento na classe. Como eu não estava sendo um bom "monitor" foi decidido que de mês em mês eram eleitos novos monitores. Além disso eu estava sendo motivo de "chacota" principalmente de uma garota mais velha que começou a tirar sarro de mim, seja pelo meu jeito de falar ou por implicância mesmo. Um dia ela pra fazer graça para os outros ela apontou um lápis e jogou a sujeira na minha cabeça e se fazendo de sonsa disse que era sem querer. Não tive reação, tinha uma vontade de empurrá-la mas como tinham me dito que o namorado dela estudava na 8ª e era um cara grande, não quis arriscar. Ainda estava magro e não aguentaria um murro.
Mas alguém contou pro meu irmão que foi junto com minha irmã e minha mãe para aporta da escola atrás da fulana. Não a encontraram mas encontraram o namorado dela. Quase saiu uma briga feia. Meu irmão o encarou e disse que a namorada dela era isso, aquilo. Uma confusão do cacete!
Depois disso ela voltou só um dia com a mãe dela, mas não para estudar e sim para avisar que ela estava indo para uma outra escola. Ela na porta da classe sorrindo era uma das coisas mais patéticas que já tinha visto.
Um mês depois e algo estranho acontecia. Tudo quanto era sorteio, seja do que for, sempre estavam sendo sorteados eu e a garota que tinha sido eleita comigo para monitor da classe.
E o pior, estava começando a gostar dela.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

Coração partido nº 2

Certo dia eu estava passando pelo outro lado da escola. Era uma escola grande, num formato de um quadrado com as classes nas laterais e a quadra e o refeitório no centro desse quadrado, e para ir de uma classe para outra tínhamos que descer e subir escadas. E como algumas garotas gostavam de ficar sentadas conversando no outro lado e o banheiro ficavam do outro lado tinha que passar por elas.
Numas dessas passagens, uma delas tirou uma brincadeira comigo. Era aquela garota. O nome dela era Leila. Nem me lembro direito qual era a brincadeira, mas eu a cumprimentei sorrindo e nisso uma outra garota queria me cumprimentar e eu recusei e as outras garotas começaram a rir. Foi a maior brecha que dei. Ela viu que estava realmente gostando dela. E ela resolveu fazer algo.
Quando voltamos do intervalo, estávamos esperando o infeliz do monitor abrir a porta quando de repente ela aparece e beija na boca um dos alunos mais novos da sala que estava na minha frente. Fiquei sem reação novamente. Não sabia para onde olhar, não sabia o que fazer. Todo mundo gritava como se o moleque tivesse ganhado na loteria. Outras garotas que estavam mais longe apontavam para mim.
Fiquei aquele dia todo pensando. O que fazer? Desistir de estudar? Tentar arrumar uma garota para namorar para revidar? O que fazer?
Decidi continuar estudando, já que no meio do ano iria mudar daquele bairro e de escola. Teria que aguentar mais 4 meses. Deixei acontecer.
Quando se tem 13 anos parece que os hormônios estão a toda força. Uma loucura, era só uma garota vir com uma calça apertada ou saia para nos chamar atenção e deixar a gente enlouquecido.
Estava fazendo assim. Para esquecê-la, estava inventando, na minha cabeça, que estava saindo com uma garota que via no pátio ou na educação física na quadra. Lógico que eu sempre quebrava a cara com isso e não ajudava a esquecer ela.
Certo dia no intervalo, no caminho, ao virar para pegar a escada que levava para o banheiro, uma garota se pôs na minha frente, me encarou e de leve pôs a mão no meu ... er lá onde você pensou. Foi instintivo, a prensei na parede e a beijei, mas ela se largou de mim, sorriu e saiu correndo pelo corredor.
Pensei, consegui. Consegui uma garota.
Pouco minutos depois a vi nos braços de outro cara aos beijos. E isso ainda não é tudo.

domingo, 9 de julho de 2006

Coração partido nº 3

Era a metade do segundo bimestre. Um mês para eu ir embora, pensei. Eu ainda tinha tentado mais uma garota, mas a minha habilidade era lamentável e só tomava foras homéricos. Até que apareceu a professora de educação artística perguntando se alguém queria concorrer no concurso de lambada que haveria dia 24 na escola. Alguns levantaram a mão. Eu pensei, não sei dançar, sou uma aberração dançando. Não vou participar disso. Se participar, vou passar vergonha. Mas não é que todos que levantaram a mão, a Leila também levantou e todos os casais foram formados, só sobrou ela. A professora perguntou se alguém mais queria. Fiquei louco com a situação que estava se desenhando. Se aceitasse, estaria dançando com a garota que mais desejava, poderia passar a vergonha que fosse, mas só de dançar com ela com aquelas saias minúsculas de lambada me deixava louco. Tinha que levantar a mão, tinha!
Não levantei.
Ela disse que tinha uma amiga da outra classe que elas dançariam juntas.
Uma semana depois estava no intervalo conversando com alguns colegas de classe, e uma coisa estranha e que alguém reparou e questionou. Sabe daquele garoto mais novo da sala que ela havia beijado na frente de todos? Por que ele não levantou a mão, já que ela era namorada dele.
Ele respondeu que não aguentava mais ela. Ele dizia que ela estava ficando chata, que não largava do pé dele e que eles terminaram. Mas o surpreendente não era isso. Tinha mais um motivo. Ele desconfiava que ela estava gostando de alguém e que eles só estavam juntos para ela fazer ciúmes a essa pessoa, que ela só pegava no pé dele quando essa pessoa passava por perto deles.
Seria eu? Perguntei na hora sem pensar.
Ele respondeu que não. Que talvez era um rapaz da 6ª pois ele era vizinho dela.
Tudo bem. Não era eu. Ou era e ele não percebia?
Mesmo assim fiquei animado. Ela não tinha mais o pirralho para atrapalhar. Uma semana antes da festa junina da escola, ela saia mais cedo para ensaiar para o concurso de lambada. Eu queria morrer. Queria que algo acontecesse e eu fosse levado para outra galáxia. Mas tinha que aguentar, afinal aquilo estava acontecendo pela minha covardia e falta de atitude.
Terça-feira, ela e algumas amigas dela (gostosas como ela) se aproximaram de mim. Estranhei aquilo. Perguntei o que elas queriam comigo. A Leila disse que ouviu alguém dizer que eu iria mudar do bairro e que por isso pararia de estudar por não ter condições de pagar a condução até a escola. Ela chegou ao cúmulo de se oferecer a pagar a minha condução para que eu não parasse de estudar. Algo estranho, muito estranho. Elas sairam e eu fiquei pensando nisso.
Eu na classe, como não gostava muito de certos professores, falava na aulas deles que não via a hora de me mudar e mudar de escola. Tinha rixa com alguns alunos, mais com os "playboys" e "patys" filhinhos de papai.Não via a hora de ir embora.
Mas algo estava para acontecer.

sexta-feira, 9 de junho de 2006

Coração partido nº 4

Quinta-feira. A professora de português tinha faltado e não tinha substituta. Os alunos ficam pelo pátio. Uns estavam na quadra jogando futebol e outros no corredor e na classe conversando. Eu estava procurando um lugar para ficar isolado, sem ninguém da minha classe por perto. Fiquei no refeitório vazio, sentado em um banco sentado, pensando em algo. Quando de repente, sinto algo quente no meu braço. Era ela. Eu quase tive um surto. Não sabia o que fazer. Fiquei paralisado e ao mesmo tempo excitado. Nessa idade é fogo.
Ela começou a puxar conversa. Perguntou quantos ônibus eu tomava para chegar na escola. Eu virei e tomei coragem e perguntei a ela qual o motivo de tudo aquilo. Ela sem entender nada, perguntava o que. Eu respondi, aquele namoro com o moleque, a boa ação dela para pagar a minha condução. Ela respondeu que o namorou porque realmente gostava dele. E a condução era porque ela via que eu era esforçado e achava um desperdício de tempo que eu parasse de estudar. Perguntei a ela se ela gostava de alguém na escola. Ela me respondeu se eu estava falando de mim. Se ela gostava de mim. Eu nem deixei ela responder, disse que gostava dela e que ela só fez aquilo para fazer ciúmes para mim. Ela não respondeu nem não nem sim. Apenas perguntou por que eu não havia aceitado participar do concurso de lambada. Eu ri, disse que não sabia dançar e ela me respondeu que me ensinava que não era difícil. Eu olhei para ela e perguntei se depois das féria ela aceitava conversar comigo numa outra ocasião. Ela reposndeu se eu voltar a estudar depois das férias, sim. Eu levantei e disse a ela que estaria torcendo muito para ela ganhar o concurso. Nisso eu fui até a classe, peguei os meus cadernos, saí da escola pela diretoria e fui pra casa.
No dia da festa, para não ir com as mãos abanando, comprei um saco de milho para pipoca e fiz uma tigela de tupperware e levei para a escola. Ao entrar deixei a vasilha na classe encima da mesa da professora que fechou a classe e fui para ver a festa. Tinha uma parte que era reservado apenas para os professores, adultos e alunos do 2º grau. Ficava numa parte alta, que era uma espécie de interligação entre os corredores da escola, mas que durante o ano o portão era fechado. Eu com a minha cara de pau entrei, pois mesmo com treze anos, eu tinha altura de alguém com 16. Ao entrar, vejo os meus colegas de classe que ao me ver tentar entrar mas são impedidos pelo porteiro.
Nisso eu me encosto na mureta e vejo que o concurso de lambada já havia começado. Eu procuro e encontro ela dançando com a amiga. As duas de saia rodada, A da Leila era cor de vinho e da amiga azul piscina. A parte de cima era branca e da amiga era da mesma cor da saia. Do lado ouvia comentários maldosos sobre as duas estarem dançando juntas. Até insinuações de que as duas eram lésbicas ouvi. Eu estava imune a isso e só prestava atenção nela. Nas pernas delas, no movimento do corpo dela e lamentava de não estar lá.
Elas tiraram o segundo lugar e eu sai dali e voltei para classe que estava aberta. tive quedar uma volta imensa até chegar na classe e quando cheguei lá ela já estava na classe. E o pessoal estava comendo a pipoca. Até a professora disse que foi boa a idéia de quem trouxe de trazer pipoca. Mas eu não para de olhar ela com aquelas pernas, aquele corpo. Quando ela reparou que eu a estava olhando, sorriu. Nisso entra a amiga dela a chamando dizendo que alguém queira falar com ela. Ela não queria, mas a amiga dela a puxava e a levou para fora da sala.
Esperei por uns vinte minutos e resolvi ir embora. A pipoca já tinha acabado e coloquei a vasilha embaixo da blusa e fui embora pra casa.
Depois disso começou as férias e eu me mudei com a minha familia de lá. Só que a minha mãe resolveu pagar o meu ônibus e que eu continuasse a estudar lá. Após as férias voltei a escola. Alguns professores perguntaram o porque de eu continuar a estudar se eu dizia que ao me mudar iria mudar de escola. Eu não sabia o que responder. Outra coisa que havia acontecido é que ela não apareceu na primeira semana de aula.
Na outra semana tinha brigado feio na escola e resolvi não ir mais. Minha irmã que estudava na mesma escola ficou com os meus passes e eu em casa. Minha mãe descobriu e eu tomei uma surra dela.
Perdi o ano escolar e a garota que eu mais desejava. Eu pensando que iria esquecê-la fácil, ao ligar o rádio ouço uma história envolvendo duas pessoas. Paulo e Leila.
Desliguei o rádio.